Luanda, 01 ago (Lusa) – João Lourenço completa quinta-feira seis meses como cabeça-de-lista do MPLA às eleições gerais angolanas, mas desde que o anunciou como candidato a seu sucessor, o Presidente José Eduardo dos Santos não partilhou com ele qualquer ato.

Após meses de especulações, o chefe de Estado e presidente do partido anunciou a 03 de fevereiro, em reunião do Comité Central do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), que não seria recandidato ao cargo nas eleições gerais deste ano, que entretanto convocou para 23 de agosto, deixando assim o poder ao fim de 38 anos.

Nessa reunião, José Eduardo dos Santos anunciou que tinham sido aprovados pelo partido os nomes dos generais e ministros João Lourenço, para cabeça-de-lista do partido e concorrendo assim ao cargo de Presidente da República, e Bornito de Sousa, como número dois e candidato à eleição para vice-Presidente.

“A nossa marca de campanha estará no boletim de voto, como foi no passado: É a bandeira do MPLA e a cara do nosso candidato a Presidente da República. Estes símbolos devem ter uma grande divulgação no seio do povo, rumo à nossa vitória”, declarou ainda José Eduardo dos Santos, referindo-se a João Lourenço, também vice-presidente do partido, então oficializado como cabeça-de-lista.

Na pré-campanha que João Lourenço iniciou de seguida, ainda em fevereiro e com ponto de partida no Lubango, província da Huíla, José Eduardo dos Santos não marcou presença em qualquer ato com o candidato do MPLA, o mesmo acontecendo na campanha eleitoral que já decorre desde 23 de julho.

Desde 03 de fevereiro, e por entre algumas deslocações a Barcelona, Espanha, onde segundo o ministro das Relações Exteriores, Georges Chikoti, recebe habitualmente tratamento médico, José Eduardo dos Santos não mais se referiu, publicamente e de qualquer forma a João Lourenço.

A única exceção aconteceu a 25 de julho, apenas para o chefe de Estado conceder, por despacho, dispensa de serviço, enquanto ministros e candidatos a Presidente e vice-Presidente e conforme decorre da lei eleitoral, a João Lourenço e Bornito de Sousa.

Num artigo publicado no seu portal de investigação Maka Angola, o jornalista angolano Rafael Marques afirma que a “ausência” de José Eduardo dos Santos provoca leituras distintas, nomeadamente por reforçar a teoria da doença de José Eduardo dos Santos estar “num estado avançado, restando-lhe apenas energia para as viagens frequentes a Barcelona, para ser submetido a tratamento”.

Por outro lado, escreve o jornalista, outra leitura pode ser a de que “deixa transparecer o desprezo pessoal de José Eduardo dos Santos ao sucessor que foi escolhido, João Lourenço”, porque “não lhe reconhece peso ou importância suficientes para merecer uma inequívoca mensagem sua, num comício, de apoio ao candidato do MPLA”.

Por último, Rafael Marques afirma que “devido à imagem pública” de José Eduardo dos Santos, e à crítica social, “nem João Lourenço nem o MPLA o desejam na sua campanha”.

“Em circunstâncias normais, o Presidente deveria no mínimo ter usado a oportunidade das eleições para viajar pelo país, numa jornada de agradecimento aos militantes do MPLA que o mantiveram no poder durante 38 anos”, aponta Rafael Marques.

José Eduardo dos Santos é Presidente de Angola desde setembro de 1979, cargo que assumiu após a morte de Agostinho Neto, o primeiro Presidente angolano.

Reeleito presidente do partido em 2016, completa este mês 75 anos, tendo anunciado em março do ano passado que pretendia abandonar a vida política.

“Em 2012, em eleições gerais, fui eleito Presidente da República e empossado para cumprir um mandato que nos termos da Constituição da República termina em 2017. Assim, eu tomei a decisão de deixar a vida política ativa em 2018”, anunciou anteriormente José Eduardo dos Santos.

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